Um livro potencial, feito de sentidos que se fixam por instantes para se dissolverem logo depois, é também um modelo similar ao novo paradigma da complexidade que vê o universo sob a lei da ordem a partir do caos, dos sistemas complexos e das estruturas dissipativas. Como responder a esse ciberespaço do novo milênio senão por uma estrutura múltipla e interativa, que o escritor Ítalo Calvino chama de hiper- romance?(Calvino,1990, 134).
São romances que operam à semelhança de uma moldura virtual, de modo que qualquer tentativa de enquadrar esse dinamismo numa categorização unificadora estará, inevitavelmente, fadada ao fracasso, já que apenas modelos abertos, parodoxais, instáveis e em contínua turbulência de estados de regularidade aos de caos e irregularidade, poderão traduzir com maior fidedignidade esse novo paradigma do que, talvez, venha a se constituir nos hiper – romances do novo milênio.
Quem sabe não esteja aí também, nessa capacidade de expansão em redes, o diagrama que mantém vivos os clássicos, aqueles livros que “chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram” (Calvino,1995, 11). Ou seja, um clássico perdura porque instaura uma rede hipertextual entre todos os textos culturais, literários e não-literários, que nele estão condensados e todos aqueles que ainda poderão a vir encontrar nele um espaço para conexões futuras. Nesse sentido, a sua eterna juventude consistiria em ser um sistema aberto, não linear, paradoxal e complexo, feito mais de virtualidades de conectores multiespaciais e temporais do que de preenchimentos e de conteúdos datados.
Interessante é ver que a interface digital e tecnológica, ao operar como uma instância de mediação do literário, acaba revelando o diagrama hipertextual, que, provavelmente, subjaz ao projeto literário de qualquer clássico. Esse é o caso de Machado de Assis, especialmente em uma de suas obras-primas – Memórias Póstumas de Brás Cubas – que tematiza e iconiza a própria memória [hiper]textual, como procuraremos demonstrar neste trabalho.
Memória e hipertexto
A hipótese de que o livro Memórias Póstumas possuía um estrutura multidirecional, hipertextual e interativa derivou-se de uma investigação bem anterior da autora (Oliveira, M.R.D. A Escritura Semiótica de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dissertação de Mestrado. PUCSP.1975, inédita). Naquele trabalho, pudemos desenvolver e comprovar a pertinência de uma hipótese de leitura crítica que, ainda hoje, parece-nos atual dentro da extensa bibliografia crítica sobra a obra[1].Trata-se de uma interpretação de memória em termos escriturais, o que permitiria acessar, por diferentes vias memorialistas, camadas de lembranças textuais, única herança que nos legou esse duplo do autor Machado de Assis: o defunto-autor Brás Cubas.
Nesse espaço escritural, a memória seria o movimento para trás (o passado) ou para a frente (o futuro) em busca de suas lembranças associativas condensadas ora numa palavra, ora numa frase, numa metáfora, num ritmo, num capítulo, ou mesmo numa alusão explícita ou apenas sugerida. Esse percurso ziguezagueante e não- linear da memória é o que permitiria uma espécie de navegação hipertextual por entre camadas de lembranças textuais em crescimento contínuo e multidirecional, por meio de operadores que se aproximam aos de um documento hipertextual, tais como: retornar, avançar, reler, reescrever, corrigir, colar, intercalar, substituir, saltar, suprimir, etc., como veremos adiante.
A navegação pelas camadas de memória do livro
Desde a Dedicatória, marca-se uma ação básica no livro – o roer – pré antropofágico e ruminativo, responsável pelos tartamudeios de um “estilo pobre”(Campos, 1983: 183) ou, ainda, pelo que Raimundo Magalhães Jr. chamou de “repetições” do estilo machadiano (Magalhães, R., 1955).
No entanto, para nós, o “roer” é o operador fundamental do próprio processo de composição do livro assentado sobre a “memória”, que não deixa de ser um ato de roedura no passado, irreversivelmente transformado pela sua retomada no presente. É justamente o caminho ziguezagueante dessa ação de roedura – que volta à palavra, à frase, à comparação ou, simplesmente, à suspensão reticenciosa (o passado), para logo a seguir se projetar para a frente (o futuro) numa outra forma de se redizer- o elemento materializador do próprio movimento do verme em sua ação paradoxal de destruir e reconstruir o corpo do texto, do livro e do defunto- autor Brás Cubas.
Os procedimentos desse tartamudeio ruminativo e memorialista são inúmeros e, a título de exemplo, elencaremos alguns deles:
a) a lembrança de uma palavra em outra, porém, com acréscimo ou supressão de atributos:
- Cap. XI- “ Cresci; (...); cresci naturalmente como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância”.
- Cap. LVII- “ talvez estejas a criar pele nova, ( talvez estejas a criar) + outra cara, + outras maneiras ,+ outro nome , e não é impossível que...”
b) a lembrança de uma palavra em outra por repetição, porém, com a intenção de “coisificar” poeticamente o dito:
- Cap. Dedicatória- Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver (...)
- Cap. VII- “ vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve”.
- Cap. XXIII- “O cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício”.
c) a lembrança de uma imagem, frase ou palavra em outra(s) por inversão:
Cap. LXXXIII -13 Cap. XXIII - Triste, mas curto
X X
Cap. CX - 31 Cap. XXIV - Curto, mas alegre
- Cap. I- “ Acresce que chovia- peneirava- uma chuvinha miúda, triste e constante,
tão constante e tão triste”
d) Retorno a palavras, frases, ritmos, comparações etc. para recortá-los e colá-los em outra região capitular
- Cap. LVII - “Eis - nos a caminhar sem saber por que estadas escusas (...) Já me não lembra onde estava... Ah! Nas estradas escusas.
e) retorno a capítulos passados por chamadas explícitas ao leitor:
- Cap. XXVII- Virgília ?
“Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora que, em 1869, devia assistir aos meus últimos dias”.
Nessa amostragem já é possível perceber que é justamente no verme – parceiro do leitor (ver-me) e do autor – e em sua ação de roer/(re)ler/ (re)escrever que se concentra o “processo extraordinário” da composição memorialista, fundado sobre a lei da incerteza e da inconclusibilidade cujo pilar é o paradoxo, matriz de um sistema complexo e que o narrador-defunto sintetiza com precisão no cap.IV (A idéia fixa) do livro: “obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado”(Assis, M. , 1975: 104).
O paradoxo
Esse é o procedimento dominante do movimento ruminativo da escritura memorialista. É por meio dele que as contradições não excludentes vivificam o sistema, disseminando-se por todo o tecido escritural. Os procedimentos paradoxais são inúmeros:
a) Por oposição não excludente de 2 enunciados:
- Cap. I: defunto- (X) autor; campa que é (X) berço; iniciar pelo fim X iniciar pelo princípio.
b) Por afirmação ambivalente que sugere sua negação:
– Cap. IV: “A minha idéia era fixa como... talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez...
c) Por negação que deixa entrever a afirmação:
- Cap. IV: não edifica (X destrói) e nem destrói (X edifica);
- Cap. XV “Não direi as traças que urdi, nem as peitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma dessas coisas preliminares”;
Essa força desestabilizadora dos paradoxos é justamente o ponto que confere a essa escritura um caráter móvel, instável e em constante transformação, como o rio de Heráclito. O exemplo do cap. IV do livro – a “ idéia fixa que não encontra nenhum correlato comparativo fixo (talvez a lua, talvez...talvez...) – é a imagem que melhor condensa essa qualidade ruminativa da escritura, que cresce, continuamente, em direções múltiplas, sem a fixidez de um ponto finalizador da trajetória. O que ocorre é que cada partícula desse discurso memorialistaatua como um sistema interativo, sempre em trânsito para outros “nós” associativos no espaço-tempo da memória. Sistema escritural complexo, feito por irradiações que se multiplicam infinitamente.
Além de todos esses operadores que constróem desvios e atalhos bifurcadores na escritura dos capítulos, há ainda, a alternância,responsável pela criação de conjuntos modulares, próximos da estrutura paratática e virtual do hipertexto ( Lévy, 1993: 92 ).
Um exemplo magistral ocorre no cap. XLV- Notas- no qual o que se tem é um inventário paradigmático de “nós” potenciais de linhas narrativas, que permanecem na virtualidade:
Soluços,
lágrimas,
casa armada,
veludo preto nos portais
um homem que veio vestir o cadáver
outro que tomou a medida do caixão
caixão
essa
tocheiros
convites (...)Isto eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo”(Assis, 1975: 173).
O plano das lembranças de um capítulo em outro
Cada capítulo é uma cápsula interdependente que condensa o todo. São blocos textuais móveis e paratáticos que lembram o modelo hipertextual. É a leitura ou a navegação que construirá a(s) linha(s), no decorrer do itinerário, por meio da conexão dos links-personagens, cenas, imagens, etc. que retornam, instaurando uma rede de hipertexto[2].
Um exemplo disso é o que ocorre com a personagem Virgília, cuja memória vai sendo acionada por saltos entre os capítulos I [ “e... Tenham paciência! Daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora.”],V [“a anônima do primeiro capítulo..”], VI [“O que por agora importa saber é que Virgília, chamava-se Virgília ...”], IX [“Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude...”], para reaparecer, novamente, no cap. XXVI “Naquele dia”, quando se dá o seu (re)nascimento na narrativa por meio de um duplo movimento de roedura memorialista: a frase-abertura da Eneida de Virgílio [“arma virumque cano”] e a memória do leitor instigada pela questão-título “Virgília? que abre o cap. XXVII [“ Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois..? A mesma era justamente a senhora que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias...”].
No entanto, é o capítulo VI I- O Delírio - o módulo textual privilegiado cuja memória ecoa em, no mínimo, 73 dos 160 capítulos do livro, conforme pudemos levantar em nossa pesquisa. Isso nos levou à hipótese de um centro móvel - o cap. VII - O Delírio- que se desloca em movimentos concêntricos de reescrituras constantes pelo texto. Por isso, viajar para dentro dele, significa atingir o ponto zero, o aleph originário, no qual se concentra, hipoteticamente, a memória de toda a narrativa. Essa hipótese ganhará mais força preditiva ainda, quando nos defrontarmos com as redes de interconexões que o capítulo VII instaura, quer com os demais capítulos do livro, quer com as vozes textuais que nele ecoam através das citações e alusões. É esse capítulo, por conseguinte, aquele que mais abre vias de acesso para os demais e, consequentemente, aquele que terá maior ativação de sua memória, na mesma proporção dos caminhos associativos criados (Lévy, 1993: 80). Eis alguns exemplos:
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Capítulos do livro |
Conectores |
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Cap. XIII |
Calado, obscuro, pontual; até que um dia deste o grande mergulho nas trevas e ninguém te chorou. |
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Cap. XV |
(Marcela = Pandora) riso misto de bruxa e serafim |
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Cap. XVII |
Marcela deixara-se estar sentada; fria como um pedaço de mármore (= Pandora) |
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Cap. XIX |
A vaga abriu o ventre ( = Pandora) para acolher o cadáver. |
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Cap. XXI |
O mérito do ato era nenhum = lei da evolução das espécies (Darwin): egoísmo – conservação (Pandora) |
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Cap. XXIII |
· roer do cancro e o ser devorado · Agonia cruel ,minuciosa e fria, que enche Brás de dor e de estupefação. · espetáculo; consciência boquiaberta , olhos estúpidos · obscuro, incongruente, insano |
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Cap. XXIV |
Abismo do inexplicável, vertigem |
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Cap. XXVIII |
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, até a edição definitiva que o editor dá de graça aos vermes . (B. Cubas em postura de livro = S. Teológica) |
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Cap. XXX |
Eugênia ficou ereta, fria e muda; quieta, impassível (= Pandora ) |
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Cap. XXXI |
Vejam como é bom ser superior às borboletas! Pois um golpe de toalha rematou a aventura. ( inversão de papéis: Pandora _______ Brás Cubas ( verme) B. Cubas _______ borboleta |
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Cap.XXXIII |
A natureza é às vezes um imenso escárneo. |
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Cap. XXXIV |
Meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero: o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia, a farsa , os autos, as bufonerias, um pandemonium . (= caos primordial do Delírio ). |
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Cap. XXXVI |
· lascivo · talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana. |
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Cap. XXXVIII |
· o tipo elegante, a encadernação luxuosa (= Suma Teológica) · a paixão do lucro era o verme roedor daquela existência. |
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Cap. XLI |
Virgília calada, fazia estalar as unhas; era a estátua do silêncio; expressão média entre cômica e trágica (= Pandora). |
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Cap. XLII |
Pela simples transmissão de uma força se tocam os extremos sociais e se estabelece a solidariedade do aborrecimento humano. |
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Cap. XLIV |
Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos. Tinha de morrer, morreu. |
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Cap. XLVI |
Dividimos o pão da alegria e da miséria |
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Cap. XLIX |
Há 2 forças capitais: o amor ,que multiplica a espécie e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio. (Darwin ) |
É nesse sentido que cada cápsula capitular pode ser vista como uma caixa de ressonância, que ecoa em outras, num movimento para trás e para a frente, recuperando o movimento de roedura do verme e das associações mnemônicas.
O plano das lembranças de outros textos
Aqui o espaço-tempo da memória do livro expande-se para outros textos da literatura, da filosofia, da história, etc, com os quais estabelece conexões por meio de alusões e citações implícitas e explícitas, à semelhança de uma enciclopédia interativa. No entanto, e aí está a diferença, aqui os verbetes estão roídos, alterados por imperceptíveis desvios (inversões, acréscimos, supressões, substituições, etc.) que o texto presente imprime ao original passado e que muitos críticos viram como “lapsos” da memória do autor Machado de Assis.Alguns exemplos:
- Cap. XXXIII “Acrescentei um versículo ao Evangelho: Bem –aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças”.
- Cap. XXVII “Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. N!ão; é uma errata pensante, isso sim”.
O plano das lembranças de outros textos machadianos
Nessa camada memorialista, Memórias Póstumas pode ser vista como um núcleo gerador e interativo que navega, para trás e para frente, por outras obras de Machado de Assis. É o caso, por exemplo, da personagem Guiomar de A Mão e a Luva (1874), cujos atributos de autocontrole e dissimulação acionam as lembranças de Virgilia e de Capitu. Outros exemplos ainda são:
- cap. CLIII “ O Alienista”, que ativa a memória futura do conto “O Alienista” (Papéis Avulsos, 1882) e do próprio Quincas Borba;
- Pandora, que do cap. VII do Delírio, retorna, mais uma vez, no cap. VII de Dom Casmurro, ou ainda Virgília que tem em Capitu uma nova edição, revista e ampliada;
- as novas edições de narradores memorialistas, de Bentinho ao Aires do Memorial.
Memórias Póstumas em nova edição
A estratégia da morte do autor acaba sendo a força propulsora de uma nova visão: a do nascimento de um autor-defunto, cuja materialidade é feita mais da memória de textos do que de textos fixados e impressos definitivamente. Diferença sutil e, no entanto, fundamental, pois, a escritura memorialista acaba, à semelhança da faculdade da memória, instaurando um espaço-tempo multidimensional cuja realidade está entre o escrito/lido/vivido e o reescrito/ relido/ revivido, vale dizer, entre o real e o virtual. Memória, portanto, como um tecido poroso e precário sujeito ao acaso de conexões imprevisíveis e em crescimento contínuo e não-linear, tal como o “andar dos ébrios”, que é como o defunto-autor (in) define o percurso de sua narração. Seria, portanto, no espaço escritural da memória, que estaria a vida de Brás Cubas sendo reescrita, relida e reeditada a cada nova edição do livro. Um espaço feito mais de porosidades virtuais do que de certezas e de preenchimentos definitivos.
Não é difícil visualizar aí o desenho de um sistema complexo[3] cujos nós irradiam em múltiplos planos espaciais e temporais, à semelhança de um documento hipertextual, fato que colocaria esse livro de Machado de Assis de 1881 como “ponta de lança” das narrativas aptas para o novo milênio: aquelas que materializariam uma qualidade – a multiplicidade – fator responsável pelo novo paradigma dos hiper-romances.
Os hiper- romances, por sua vez, graças à permutação e à multidirecionalidade de sua estruturação, necessitam de suportes mais ágeis, plásticos, instantâneos e interativos do que a encadernação contígua página a página do livro impresso, o que nos levou a prognosticar o “livro móvel” e irradiador de outros possíveis livros (Oliveira, 1975: 176) ea propor uma nova edição de M. Póstumas em cadernos soltos e dobráveis à semelhança do jornal, parceiro indissolúvel dessa obra e de seus autores Brás Cubas/ Machado de Assis (Oliveira, 1995: 137).
Hoje, a possibilidade de tradução se agiliza e se amplia frente às novas tecnologias digitais, que abririam aos hiper-romances outras vias de acesso e tradução em redes, desafiando os conceitos tradicionais de texto, livro, autoria e leitor. Esse é um caminho que se abre para a história das edições futuras de Memórias Póstumas em sua versão eletrônica e hipermidiática, na entrada do novo milênio.
Referências Bibliográficas:
ASSIS, Joaquim Maria Machado de (1975). Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL.
BARBOSA, João Alexandre (1996). A Biblioteca Imaginária. São Paulo: Ateliê.
CALVINO, Ítalo (1990). Seis Propostas para o Próximo Milênio. São Paulo: Cia. das Letras.
_____. (1995). Por Que Ler os Clássicos. São Paulo: Cia. Das Letras.
CAMPOS, Haroldo de (1983). Tempo de Pobreza, Estilo Pobre, Poesia Menos. In: SCHWARTZ, Roberto (org.).Os Pobres na Literatura Brasileira. São Paulo: Brasiliense.
LEVY, Pierre (1993). As NovasTecnologias da Inteligência. São Paulo: Ed. 34.
OLIVEIRA, Maria Rosa Duarte de (1975). A Escritura Semiótica de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dissertação de Mestrado. PUC-SP.
_____. (1995). Memórias e Desmemórias em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Revista do programa de Pós-Graduação em Letras da UNESP. Assis-SP
VIEIRA, Jorge Albuquerque (1993). O Universo Complexo. Revista Perspicillium, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 1, pp.25-40.
1Há um trabalho recente do crítico João Alexandre Barbosa -“A volúpia lasciva do nada” - em A Biblioteca Imaginária. S.Paulo: Ateliê, 1996, que caminha nessa direção ao se referir à memória intra e intertextual de Memórias Póstumas.
[2] Hipertexto é um termo cunhado por Theodor H. Nelson na década de 1960 para designar um tipo de texto eletrônico de escrita não seqüencial, ou mais apropriadamente, multilinear e multisequencial, cujas ramificações permitem escolhas ao leitor. É constituído por blocos de textos acrescidos dos respectivos conectores eletrônicos ( links) que os unem.
[3] Na Teoria Geral dos Sistemas chama-se de “complexo” um sistema cujos elementos estabelecem graus variados de conectividade ou relações, gerando novas possibilidades de ordem e de informação a partir do caos. Ver sobre essa questão o interessante artigo de Jorge Albuquerque Vieira “O universo complexo” em revista Perspicillium, R.Janeiro, vol.7, n.1, pp.25-40, 1993.